Fogo

João morre dormindo
sonhando com a dor de uma lembrança.
João vive acordado
com os olhos entreabertos pelo medo.
João caminha desviando
da calçada flamejante e ardente.
João dorme estirado
pela cama que não lhe cabe.

E João repete todo dia
a mancha psicótica do seu cotidiano.
João adia seu sofrimento
e se maltrata adiantando a cura.
João não sabia se se arrependia
ou se enfiava a cara no travesseiro
para diuturnamente se odiar ao dialogar com a própria ousadia.

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